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VIDE BULA
setembro 20th, 2009 Posted 3:05 AM
INFORMAÇÃO AO PACIENTE
Estudos atualíssimos, patrocinados por alguns dos maiores nomes da indústria farmacêutica mundial, dão conta de que nada pode ser mais frio e impessoal que bula de remédio. De onde se conclui que sua elaboração, doravante, deve contemplar uma abordagem lúdica e interativa com o usuário, em linguagem simples, objetiva e sobretudo inteligível.
Ou seja, a ideia não é que se doure a pílula, mas a bula que a acompanha. Nossa intenção é elevar a temperatura corpórea do paciente, promovendo maior calor humano entre nosso laboratório e o consumidor.
APRESENTAÇÃO
Olá, amigo(a)!! Meu nome é Cilantilopidatreil, e de agora em diante serei seu companheiro inseparável. Estaremos juntos pelo menos 3 vezes ao dia, após as refeições. Tudo bem que você vai ter que me engolir, mas espero que isso não seja motivo para você me partir ao meio.
COMPOSIÇÃO
Letra de Helmut Pfizer. Música de Ed Roche e Sebastian Bayer. Originalmente concebida para execução em Lá Maior, acompanhada ou não pelo Regional do Capsulinha – às segunda, quartas e sextas – e pelo Renato e suas Blue Cápsulas, às terças, quintas e sábados.
INDICAÇÕES
Siga rigorosamente a seguinte orientação médica: na segunda quadra, vire à direita. Ande mais cinco quarteirões e, assim que encontrar a agência do Bradesco, pegue a sua esquerda e vá em frente, até o terceiro semáforo.
A farmácia fica bem ao lado da banca de revistas.
AÇÃO FARMACOLÓGICA
Espasmos involuntários nos músculos da face, contrações abdominais de natureza aguda, perda progressiva do fôlego, do senso crítico e do guarda-chuva no cinema, em casos mais graves.
INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS
Cilantilopidatreil não deverá ser administrado simultaneamente com moquecas em geral, pastilhas Valda e lança-perfume de fabricação caseira. A administração pela burocracia estatal também poderá trazer sérios danos ao moribundo, por provocar sonolência excessiva.
REAÇÕES ADVERSAS
Variam de discretas erupções cutâneas até o óbito, relatado em 95,7% dos casos. Por provocar diminuição da libido, o coito deve ser interrompido tão logo se inicie. Raciocínio desconexo, amnésia irreversível e descamação atípica no calcanhar direito foram efeitos detectados nos grupos de controle, durante a fase de testes do produto.
PRECAUÇÕES
Sob o efeito de Cilantilopidatreil, manetas que dirigem máquinas operatrizes precisam ser permanentemente monitorados por familiar responsável, devidamente habilitado e com CNH dentro do prazo de validade.
PACIENTES IDOSOS
Pesquisas recentes constataram episódios de disritmia na bateria da Velha Guarda da Portela.
CONDUTA NA SUPERDOSAGEM
Caso ocorra, seja ela intencional ou acidental, raramente acarreta risco de vida – apenas de morte. Quando associada a depressores do Sistema Nervoso Central, como o álcool e seus derivados, induzir o vômito ou realizar lavagem gástrica, ainda que o álcool em questão seja um Johnny Walker Blue Label.
Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças, inclusive Melhoral Infantil, e dos hipocondríacos. Conservar em local seco e fresco.

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AGUARDE NA LINHA OU LIGUE MAIS TARDE
setembro 13th, 2009 Posted 10:15 PM
Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.
O Palácio da Alvorada é patrimônio do Brasil, um país de todos. Faça uma doação e ajude a manter seus mármores e vidros em perfeito estado. Para doar R$150.000,00, ligue 0800 80088 150. Para doar R$250.000,00, ligue 0800 80088 250. Para doar R$500.000,00, ligue 0800 80088 500. Para doação de grandes valores, tecle asterisco (*) três vezes e aguarde na linha.
Se você deseja assistir em tempo real a todos os passos do Presidente, acesse www.presidente.com/webcam. Adquira o pacote completo (Combo Planalto/Alvorada/Granja do Torto), com um total de 98 câmeras transmitindo 24 horas por dia. Há opções também para o pacote meio período, com 42 câmeras transmitindo das 5 da tarde às 5 da manhã, ou o pacote fim de semana, com tudo o que acontece no cafofo presidencial no sábado e no domingo. Fale com nossas atendentes e faça sua compra pelos cartões Visa ou Mastercard.
A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.
Você sabia que só em noz moscada o Palácio da Alvorada consumiu no último mês um total de R$197.532,34, contra apenas cinco libras e noventa centavos gastos no mesmo período em Buckingham? É o Brasil mais uma vez mostrando a grandeza de seus números e sua definitiva inserção no primeiro mundo.
O Palácio da Alvorada foi o primeiro prédio construído em Brasília, possui três pavimentos e o desenho das colunas de sua fachada inspirou o brasão da cidade. O setor do palácio mais visitado pelo Presidente é a adega, e o menos freqüentado é a biblioteca. Dentre os seus mais de 70 empregados constam inclusive médicos, e estudos extra-oficiais apontam que os plantões do corpo clínico guardam estreita relação com a assiduidade do senhor Presidente às dependências da adega.
Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.
A sub-chefia do Cerimonial da Presidência comunica aos interessados que está promovendo visitas guiadas ao interior do Palácio da Alvorada. Organizados em grupos de até 300 pessoas, os turistas terão acesso a todas as dependências, incluindo a suíte presidencial de 120 m2 e o cinema, onde poderão assistir a um documentário que narra a história do Palácio e os detalhes construtivos do monumental projeto de Oscar Niemeyer. As visitas exigem retirada antecipada de senha e estão condicionadas às datas em que o senhor Presidente da República estiver em viagem oficial, ou seja, de segunda a domingo.
O espelho d’água sobre o Lago Paranoá dá a ilusão, ao visitante, de que o Palácio boia em sua a superfície. Trata-se de uma alegoria arquitetônica à população flutuante de Brasília, que abrange a quase totalidade dos habitantes da capital federal – a começar pelo mandatário supremo da nação.
A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.
Para obter o edital de concorrência para fornecimento de trufas negras de Périgord à Chef de Cuisine do Palácio, tecle 2. Para detalhes sobre a licitação de compra de jogos para playstation, tecle 3. Para informações sobre o processo seletivo de contratação de ghost writer de discursos, tecle 4.
Já ouviu falar da Alvorada Mega Store? Lá você encontra uma linha completa de presentes e souvenirs temáticos do Palácio da Alvorada. São milhares de ítens para toda a família e para você presentear seus parentes e amigos.
Na compra de três ou mais cartões postais de Brasília você concorre a uma sunga para um mergulho na piscina olímpica do Presidente.
Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.
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PARADA DA INDEPENDÊNCIA
setembro 6th, 2009 Posted 2:10 AM
A mãe para o fluxo incessante das memórias dos seus anos de internato, independente do chá de laranjeira a arrastá-la em torvelinho para o pó do giz e o álcool do mimeógrafo. A maçaneta para de levar quem se habilite ao cômodo contíguo, independente de ser ou não este outro cômodo o cenário dos enredos que fascinam. O caqui para de se abrir em seiva doce e reluzente, independente da ressequida goela dos colonos. O instinto de sobrevivência para a imobilidade aleijante, independente de todos os esforços para que nenhum esforço se faça em qualquer sentido que seja. Os segredos maçônicos param de ser segredos e vazam dos iniciados, independente do empenho dos Grão-Mestres em detê-los. Dirce de Oliveira Sales Camarinha para de arquitetar intrigas no seio doméstico, independente da quantia sumida da gaveta apontar como suspeito o arrimo da família, desafeto do cunhado que a nora da sua sogra batizou em Monte Alegre. A chuva para por inadimplência de São Pedro com a Sabesp, independente das inúmeras tentativas de negociação do débito para evitar o corte. O moço que todos juram que é irmão do Wando para de chutar nos testes de múltipla escolha, independente do seu QI recomendar o chute em 100% das ocasiões. A girafa do zoológico de Michael Jackson para de dormir de pé, independente do fato contrariar frontalmente a natureza das girafas. O Rio de Janeiro para na Rocinha de ser lindo, independente da música desde 1969 vir insistindo no contrário. O dono do celular pré-pago para de dar crédito às ofertas da operadora, independente das tarifas imperdíveis e do saldo da promoção “Recarga Premiada”. O santo para de atender os pedidos do dia, independente da urgência do devoto. O carrinho da montanha russa para no meio da descida, independente da força da gravidade funcionar regularmente. O relógio para de marcar os minutos, independente do ponteiro das horas obedecer à trajetória original de fábrica. A megasena para de acumular, independente do último sorteio não ter contemplado ninguém. A vergonha na cara para de ser nenhuma e consegue ser alguma, independente de todas as tentativas, nas três esferas do poder, para que no máximo seja mínima. O Cony para no terceiro parágrafo do texto em busca de uma palavra, independente de não levar mais que oito minutos para concluir suas crônicas. O pastor alemão da polícia militar para no decorrer do desfile e defeca na frente do palanque presidencial, independente do visível constrangimento do capitão e da câmera exclusiva da Globo.
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CONFLITO DE ENCARNAÇÕES
agosto 30th, 2009 Posted 12:30 AM
- Oi, amor.
- Ichi, atrasou um minuto e trinta hoje, heim. Cheguei a alimentar a esperança de que não viesse mais.
- Imagina, quem é morto sempre aparece.
- Dá pra falar sério ou vai continuar com a brincadeira?
- Brincadeira por brincadeira, foi você quem começou com aquela do copo. Não se deve invocar espíritos levianamente. Você perguntava, eu respondia. Foi assim uma semana inteira, toda noite, lembra? Você xavecando, querendo saber da minha vida e da minha morte, cada vez mais interessado. Não tem por que estar reclamando agora. Quem devia reclamar na verdade era eu, pois me comunicava por uma porcaria de um copo de extrato de tomate com uma crosta de sujeira no fundo e trincado na borda. Bem ao seu estilo, diga-se de passagem. Macho, desleixado, com noções precárias de higiene e ainda por cima encarnado. Arghh!
- Pois então não viesse. O que você queria, taças de cristal da Bohemia? Eu diria que o copo utilizado estava à altura da sua elevação espiritual. Aliás, eu já devia ter desconfiado do seu nível quando, ao falar sobre espíritos obsessores naquela tábua com as letras do alfabeto, você escreveu obsessão com c cedilha. O Aurélio está à disposição em algum lugar do céu, você podia tomar umas aulas particulares com ele.
- Ah, só faltava você me jogar essa na cara. Aqui no mundo dos espíritos ninguém precisa se preocupar com ortografia, bastam as boas vibrações. Coisa que você há muito tempo não vem emitindo pra mim. Já cansei de explicar pra você que somos almas gêmeas e que estamos juntos desde que o mundo é mundo. Só nos separamos temporariamente por um desencontro de encarnações…
- Olha, por mim eu deixava esse desencontro desencontrado pela eternidade afora. Quando eu for dessa pra melhor você estará encarnando de novo, e assim sucessivamente. Vai ser melhor pra nós dois. Com tanto fantasminha simpático aí em cima, logo você esquece de mim.
- Ledo engano, meu charmoso boneco de carne. Estarei sempre ao seu lado.
- Tá, e a minha privacidade, onde fica? Heim? Falar em privacidade, nem na privada tenho sossego, até no banheiro você dá o ar da graça querendo discutir a relação. Tenha dó. Quero mais é que comece logo o horário de verão, já que escurece mais tarde e eu ganho uma horinha antes de você baixar pra me encher a paciência.
- Ok, prometo ser mais discreta em minhas aparições daqui pra frente.
- Melhor ainda se limitá-las a umas duas vezes por semana, quando muito. E dê preferência aos dias de faxina, quando eu não estiver em casa.
- Bom, eu não desci aqui pra brigar com você. Mudando de assunto, como estou hoje?
- Com toda certeza, mais pálida que o costume.
- E lhe agrada? Musas geralmente são pálidas.
- Embora a palidez nesse caso seja da natureza cadavérica. E decididamente não sou chegado em necrofilia.
- Que é isso querido, não curte uma alma pelada? Imagina nós dois num caixão de casal, com rendinhas negras e colchão de água…
- Não fala assim que é pecado. Na condição de espírito você devia dar o exemplo.
- Ai, que santinho. Leio seus pensamentos o tempo todo e sei que você é um devasso. E se continuar assim, vai direto pro inferno.
- Deus me livre. Pra encontrar você lá?
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NOTÍCIAS FRESCAS DO VENERÁVEL DUÑA
agosto 16th, 2009 Posted 12:01 PM
É certo que alguém de sua envergadura moral, investido da autoridade esotérico-telúrica com que foi agraciado pelo Olimpo, jamais deveria ser visto por aí de testa franzida, espinha arriada e olhar embaçado, sem o brilho via-lácteo de outrora. Não obstante, é assim que o Duña vem se apresentando a quem o vê em seu vagar errante por entre hortas e granjas da nossa zona rural, a esmagar rabanetes e pintinhos de um dia.
Decididamente, este guardião das verdades eternas há muito não é mais o mesmo. Eu, que tenho o privilégio de privar de sua intimidade, habitué que sou dos longos serões na sua choupana, afianço-lhes que a situação assim se configura e tende a agravar-se. Tantos são os pedidos de autógrafos e fotos com criancinhas ranhetas, as prescrições de rezas-bravas, os conselhos, unguentos, bençãos, imposições de mãos sobre feridas e aleijões que já não lhe resta tempo nem de remover discretamente uma cera do ouvido, quanto mais de usufruir de reparador banho de imersão nas Thermas ou de deliciar-se com duas ou três bagas de jaca ao molho barbecue, receita de família que o mestre tanto adora preparar e deglutir.
Tenho cá para mim que seu lado humano clama um tanto pelo ócio criativo a que os comuns dos mortais têm direito. Coisas triviais como coçar uma frieira, dar umas baforadas em seu cachimbinho de jacarandá olhando o firmamento ou trocar um dedo de prosa com seu dileto amigo Silas, discípulo desgarrado e hoje carteiro em vias de se aposentar.
O Duña também é gente, é bom que não esqueçamos. De carne e osso se apresenta à pecadora humanidade, que lhe ergue bustos sem cessar, de bronze e mármore de Carrara, nas praças das grandes, pequenas e particularmente das médias cidades. Talvez a causa do desalento seja faltar ao Oráculo um superior, um outro Duña ainda mais onipotente em quem se espelhar para inspirar seu sacerdócio. Imaginem vocês o quanto deve ser solitário amparar a todos e não poder lançar-se ao colo de quem quer que seja para um providencial cafuné. Ou ter de aturar um arrastão de sacripantas, batendo à sua porta às 3 e meia da madrugada, ávidos por um palpite para o próximo sorteio da Mega Sena acumulada.
É hora de retribuir, ao fulgurante ser duñesco, uma centésima parte das bem-aventuranças e dos casos instantâneos de cura de que nos servimos a um simples toque na sua túnica, nos bons tempos em que era moço e com a longa barba ainda ruiva. Não deixemos que a esplendorosa criatura renda-se ao poço da depressão incapacitante, que nos privaria irremediavelmente dos borbotões de enunciados, teoremas e máximas que há gerações jorram de sua boca para influenciar os destinos do planeta. Sugiro que o deixemos em paz nas suas meditações fecundas, para que dessa inércia restauradora ele ressurja em seu viço de líder espiritual. E para que possa, novamente, dirimir as indagações comuns aos gurus de sua estirpe: Qual o sentido da vida? De onde viemos? Para onde vamos? Por que os jalecos dos mecânicos irlandeses apresentam mais manchas nos cotovelos que os de seus colegas hondurenhos?

VOCÊ ERA
agosto 10th, 2009 Posted 2:13 AM
Você era uma lacuna. Toneladas de vazio se ergueram nos arredores, demarcando seu lugar. Por essa fenda a alargar-se, um cão vaga até hoje em inanição a farejar seu rasto e a vasculhar arestas.
Você era uma borracha. Das verdinhas e macias, que a gente levava no estojo, quando nem me passava pela cabeça te tirar para dançar. O fato é que um belo dia, sozinha a ouvir Rubber Soul, você apagou o meu rosto no caderno de espiral. E exultou, ainda por cima, rindo-se do meu sumiço.
Você era um exaustor. Sugou o ar carregado de vagabundagem e os restos de festa que haviam. Lançou para fora do apê todas as cinzas e cacos, que devem jazer amorfos em algum bueiro da pólis. O que sobrou, se sobrou, respira com a ajuda de aparelhos.
Você era uma pílula de placebo com validade vencida. E eu a sentir seus efeitos me fiando no seu rótulo. Depois veio a rebordosa, que deixou tudo mais seco que verso de João Cabral.
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ALEATORIAMENTE
agosto 2nd, 2009 Posted 9:49 PM
Ausência de criatividade pode não significar falta de aptidão para a coisa; talvez seja simplesmente desconhecimento de técnica. Às voltas diariamente com o dilema criativo, por questões profissionais, acabei caindo recentemente num site muito interessante sobre estratégias mentais.
Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “Random word”, também conhecida como “Estímulo Aleatório”. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a ideia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim paralelos e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.
Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “Brotoeja”. Caramba, brotoeja… Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas a aleatoriedade poderia ter sido um tiquinho mais camarada. Tentei de novo. Apareceu a palavra “Empada”. Pra achar alguma liga entre “Empada” e “Inspiração”, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica…
Ainda assim, fui em frente. Caí no termo “Tubo”. Relacionando “Inspiração” a “Tubo” fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à combinação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com esse argumento de tirar o fôlego. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável manancial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!
Optei pela caminhada. Coloquei bermuda e tênis e pus-me em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por remota associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros de Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de “Hollywood” por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao “Mistério de Irma Vap”, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. O tear me lembrou “tears”, das lágrimas surgiram o colírio, que me abriu os olhos e me fez parar com a brincadeira. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última ideia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.
O fato é que cheguei a 3556 caracteres, contando espaços – o que está de bom tamanho para o texto semanal. Se vai agradar ou não, é outra história. Mas valeu ter chacoalhado a macieira.
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BICICLETA ERGOMÉTRICA: GUIA PRÁTICO DE CONVIVÊNCIA PACÍFICA
julho 25th, 2009 Posted 10:57 PM
Trapacear a si mesmo arrumando outra desculpa seria infantil: você jurou que começava na segunda, e segunda é um dia que sempre chega antes do que a gente espera. Olhe só pra ela: novinha, reluzente, a nota fiscal sobre o selim ainda coberto de plástico-bolha. Dizem que vendo TV enquanto pedala o sacrifício fica mais fácil. O problema é que, pra arrumar um lugar pra sua TurboBike Magnetic Flash, você teve que tirar a TV do quarto. E poderia ser pior: um centímetro a mais e a cama também teria que ir parar no corredor.
Uma bicicleta ergométrica é, literalmente, fria e calculista. Fria por ser metálica (no inverno é particularmente repugnante chegar perto); calculista pelo display multifunções que ostenta no guidom, se é que se pode chamar de guidom aquele troço que não vira nem pra esquerda nem pra direita. Enquanto você veste o agasalho esportivo, ela parece dizer: “Vem, amorzinho, monta com vontade. Prova que você é macho de verdade, vamos perder juntinhos aquela pizza 4 queijos que você ganhou ontem”.
Você até pensou em comprar uma bicicleta comum, dessas de 18 marchas. Observando a paisagem a coisa ficaria mais lúdica e pitoresca, com a vantagem de mostrar pra vizinhança que você cuida da forma. Mas agora é tarde, e o que resta é lidar da melhor maneira com seu novo algoz. Aí vão algumas dicas:
- Meia hora parece meio mês quando se está em cima de uma ergométrica. Melhor não ficar olhando a cada dois minutos para o indicador de tempo de exercício. Experimente a nova técnica denominada “bike meditation”: aprumando a coluna no banco, feche os olhos, respire compassadamente e imagine-se a pedalar no Caminho de Santiago. Faça da tortura algo sagrado e redentor, um instrumento de purificação da alma.
- Não tente ler jornal enquanto pedala. Além de trepidar com o movimento – o que é péssimo para a vista, em minutos seu exemplar estará empapado de suor – o que será repulsivo para quem folheá-lo depois de você.
- Evite pensar no esforço a ser feito – concentre-se nos conseqüentes resultados. Imagine-se com os pneus devidamente esvaziados, a região glútea fortalecida e os bíceps schwarzenegicamente anabolizados.
- Disfarce a aversão: seja amigável com ela. Cumprimente-a pela manhã, alise-a, pergunte como estão suas catracas. Faça dela sua aliada. Afinal de contas, ela estava muito bem lá na loja. Foi você quem inventou de trazê-la pra casa. E, como dizia o Pequeno Príncipe, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
- Com o passar dos meses, o mecanismo começa a ranger. Isso é mortalmente irritante. Para contornar o problema, assovie sua música predileta. Ou mantenha à mão um óleo lubrificante de boa qualidade, para não acordar os vizinhos de cima e de baixo do seu apartamento.
- Conforme-se com uma série de sacrifícios heroicamente praticados mundo afora, sem benefício algum para a saúde. O faquirismo, a auto-flagelação, as caminhadas sobre brasas, as filas nas repartições públicas. Você verá que, mesmo montado numa ergométrica, é feliz e não sabia.
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AUXÍLIO-JAQUETÃO E OUTRAS PROVIDÊNCIAS
julho 19th, 2009 Posted 12:42 AM

Bendita a hora em que tomei a deliberação de alocar o Jervoilson, Assessor D.A.S. 6 e apaniguado há sucessivas legislaturas do Bergoncildes Canastra, para organizar minha biblioteca da fazenda. O pobre andava mesmo enfastiado da chupação de lápis na sub-comissão de transcrição para braile dos discursos parlamentares, e com esse afazer pode ocupar melhor os seus dias e amealhar de lambuja umas horinhas extras. No total são 1.587.313 exemplares do “Marimbondos d’Água” entulhados no paiol, em edições patrocinadas pela Prefeitura de Santa Luz, pelo Governo do Estado do Maralhão e pela gráfica do Senado, que honrou-me com 38 edições anuais e consecutivas para distribuição a ONGs e escolas públicas brasileiras e do Mercosul.
No mais, devo admitir que foi bastante puxada a semana que passou, com variadas emendas apresentadas e favas contadas para aprovação. A primeira delas dispõe sobre a dispensa dos senhores senadores e suplentes de suas atividades legislativas no dia de seus respectivos aniversários. Permanecendo em suas bases eleitorais, os mesmos poderão receber, no recesso de seus lares, os merecidos parabéns dos correligionários.
A segunda emenda diz respeito à inclusão do Arroz de Cuxá, iguaria da qual não consigo me privar, no cardápio do restaurante do Senado. Já agendei uma degustação no plenário ao som de Alcione, glória maralhense, acompanhada da Banda de Pífaros de Coroatá.
Já a terceira emenda só passa em primeira votação à força de conchavo e de marcação homem a homem, com os aliados da base governista caçando apoiadores na unha: a criação do “Auxílio-Jaquetão”, com verba inicial de R$ 2.600,00 inclusa no contracheque e isenta dos descontos de praxe. Modéstia à parte, considerei memorável o meu discurso, onde defendi a indumentária como sendo alternativa salutar ao calorão do cerrado, facultando o seu uso em substituição ao terno e gravata protocolares. Foi deferido ainda o encaminhamento, sem necessidade de licitação, de estudo de figurino feminino do referido jaquetão, para que as senadoras também sejam contempladas pelo benefício. O ilustre senador Filinto Mangol fez um aparte muito a propósito, sugerindo que a versão feminina contivesse estampas de florzinhas nativas das regiões de onde as legisladoras são oriundas.
Por tratar-se de assunto correlato, fiz constar nas discussões do mesmo dia outro projeto de minha autoria: a “Licença-Abotoadura”, que torna não-obrigatório o uso do adorno nas sessões plenárias, pelos mesmos motivos expostos para adoção do jaquetão, quer seja, a tórrida temperatura brasiliense. Adicionalmente, nossa Casa de Leis ganharia um fortalecimento da sua imagem perante a opinião pública, já que sem as abotoaduras se tornará mais prático o procedimento de arregaçar as mangas no batente.
Concluindo, o projeto denominado “Seguro-Jeton”, que estabelece o recebimento do adicional por assiduidade ainda que o Senador ou suplente não seja propriamente assíduo às sessões. Ninguém desconhece que a existência do Jeton é expediente criado para reforçar a remuneração básica, e o seu não recebimento seria motivo de dissabor e desconforto, tanto na Câmara quanto no Senado. A apreciação da matéria se dará em caráter de urgência urgentíssima, havendo ou não o quórum regulamentar.
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EXÍLIO DE ZOÓLOGO
julho 12th, 2009 Posted 12:00 AM
Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.
Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.
Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.
Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.
Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

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