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TOCs PARA ONOFRE
outubro 11th, 2009 Posted 1:18 AM
TOCs PARA ONOFRE
Penso que numa relação saudável entre patrão e empregado tem de haver diálogo, abertura e franqueza. Por mais que essa relação sofra um natural desgaste de 46 anos, como é o nosso caso. É sabendo que você também pensa assim que tomo a liberdade de fazer alguns comentários sobre seus préstimos e a particulares constatações de natureza diversa, anotadas em 14 do corrente em minha agenda de capa preta – aquela que você ofereceu-me de presente no Natal passado.
Quando optei pela contratação de um administrador doméstico, imaginei estar comprando minha despreocupação quanto a entraves de ordem prática que tomariam-me todo o tempo, ainda que o dia, ao invés de 24, tivesse 27 horas ou mesmo 27 horas e meia. Acertei de vez em quando. Errei quase sempre.
Comecemos por um elogio – o único – mas digno de menção neste improvisado relatório. As meias sociais estão seguindo o habitual degradée de tonalidades de um par para outro, na forma como são dispostas na gaveta, facilitando assim a escolha e a combinação com a roupa a ser utilizada. O mesmo critério, contudo, não vem sendo adotado com as meias esportivas e os lenços. Gostaria de saber em que estes itens da indumentária são inferiores para merecerem sua desatenção, Onofre.
Numa das reentrâncias da louça do bidê da suíte, em posição perpendicular à duchinha, pude observar um ponto verde de aproximadamente 1mm de diâmetro, o que poderia comprometer seriamente a higiene íntima das senhoras – que por ora não trago, mas que posso vir um dia a trazer aos meus domínios.
Queijos com furos em excesso no café da manhã: nada pode me irritar mais e embrulhar meu estômago na hora do desjejum. Sendo os mesmos adquiridos por peça, e não por quilo, acabo pagando pelo não-queijo ou invés do queijo. Solicite, doravante, que a moça do setor de laticínios corte o queijo ao meio para que você dimensione o número de buracos antes de efetuar a compra. Tome como parâmetro uma quantidade máxima de 0,3 furos (dos pequenos) por centímetro quadrado. No começo você precisará recorrer à calculadora científica, mas com o tempo passará a resolver a questão no olhômetro.
Já mais de uma vez o alertei quanto à conveniência de alternar o lado de inclinação da vassoura no processo de varredura. Se o esforço de inclinação for só para a esquerda ou só para a direita, os ramos da piaçava ficarão tortos prematuramente para um dos lados, encurtando a vida útil do utensílio.
Não creio que sua ignorância chegue ao ponto de não saber o que seja simetria, nem que me venha com a desculpa de ter faltado à aula nesse dia. De qualquer forma, tenho para mim que a questão é menos matemática do que de equilíbrio estético, e para isto basta um mínimo de bom senso. Refiro-me ao frequente desalinhamento entre os quadros nas paredes e os tapetes da sala, bem como à distância entre o Cuco, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes e o termômetro que trouxe de lembrança de Campos do Jordão.
Passemos ao armarinho de remédios. Nada justifica aquela bagunça, onde todos se misturam: os não-tarjados, os tarja vermelha, os tarja preta ( Rivotril, Eufor, Dormonid, Bromazepan, Tofranil, Prozac ) e por fim os fatais, como raticidas, formicidas, soda cáustica e maionese de casamento – toda esta parafernália em meio aos apetrechos para lavagem gástrica, em caso de arrependimento.
Agora, os jornais que forram a gaiola do loro. É preciso que haja uma utilização equânime das publicações. Há lógica no raciocínio: se o Loro fala é possível que também leia, e é justo possibilitarmos ao bichinho pluralidade de informação, alternando a forração com a Folha de São Paulo, o Estadão, O Globo, o Jornal do Brasil e a Gazeta de Jacutinga.
Algumas maçanetas das portas estão rangendo, sinalizando falta de aplicação periódica de óleo lubrificante WD40. Você, Onofrinho, mais do que ninguém conhece meu hábito de percorrer todas as portas da casa antes de recolher-me à noite aos meus aposentos, certificando-me, re-certificando-me e tri-certificando-me de que se acham todas trancadas. Por favor, faça sua parte a ajude-me a tornar mais suave esta árdua tarefa. Saberei recompensá-lo com um panetone de frutas e um garrafão de vinho Sangue de Boi, junto com o décimo-terceiro no final do ano.
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ZORAIDE PROPAGANDA
setembro 27th, 2009 Posted 3:16 AM
Tudo começou quando fui servir suco para o Dr. Célido e o Diretor Comercial na sala de reunião. Vi os dois falando sobre o anúncio que vocês criaram e dizendo que carecia aumentar o elefante no layout e enfiar uma tarja alaranjada perto da tromba dele, dizendo “últimos dias, aproveite” ou algo parecido. Não entendi patavina dessa história de retrato de elefante no reclame, já que até onde eu sei a empresa trabalha com fibra ótica e eu acho que tem que mostrar as coisas que a fábrica faz, quanto é que custa e colocar depois o endereço, que é pra pessoa se orientar e saber onde é que tem que ir pra comprar os negócios que a propaganda fala.
Vocês inventam umas doideiras, se sai uma propaganda dessa vão achar que é anúncio de circo. Só sei que eles continuaram até tarde trancados lá na sala, às vezes dando berros e rabiscando inteirinho o layout que a moça que trabalha aí com vocês trouxe anteontem. Depois vi que cada um ficou fazendo uma lista de frases, também pra colocar no anúncio, e ficavam falando sobre trocar de agência, que qualquer coisa era melhor que essa porcaria que vocês fazem. Desculpe a dureza das palavra, mas era desse jeito que eles falavam, e acho bom vocês ficarem sabendo logo da verdade verdadeira pra tomarem cuidado e já irem esperando pelo pior.
Mas, continuando, depois chegou a dona Izildinha do RH com sua meia preta desfiada e começou a dar um pitaco atrás do outro, com aquela vozinha esganiçada, falando que por ela tirava o elefante e punha no lugar uma porta de carro amassada com uns dizeres sobre tráfego seguro de dados, que era legal uma amalogia (é assim que fala?) de trafegar em alta velocidade e trânsito, e aí então falar da fibra ótica, etc etc. O Diretor Comercial disse pra ela fechar o comedor de lavagem e que ela só entendia de recrutamento e seleção e coisa e tal. Aí ela começou a tremer o lábio de nervoso e jogou o copo de suco na cara dele. Depois pegou a bombinha de ar dentro da bolsa e começou a se borrifar pra acalmar a asma, enquanto eu fui buscar um pouco de água com açúcar.
Veja bem minha situação, eu não quero de jeito nenhum meter minha colher nessa cumbuca, mas é que a minha irmã, que me arranjou emprego aqui, é faxineira de vocês, e acho que falando essas coisa eu estou ajudando ela também, pois com certeza a Crô vai pra rua se vocês se ferrarem de verde e amarelo. E a chance de vocês se darem muito mal é grande demais, a não ser que apareçam logo por aqui com anúncios bem chamativos, como por exemplo “A sua melhor opção de compra”, “O gerente ficou louco”, “A gente faz aniversário e quem ganha o presente é você” e outras frases de efeito que façam o sujeito se convencer que os nossos produtos são realmente ótimos. E deixaria o emblema da firma altamente enorme, com os produtos da fábrica em volta dele, parecendo o sol com os planeta girando em torno, sabe, acho que desse jeito funciona pois a pessoa enxerga de cara o que interessa. Mas agora chega de palpite que eu já estou parecendo a dona Izildinha.
Voltando ao Dr. Célido, ontem mesmo ele comentava pelos corredor que todos vocês aí na agência são uns malas sem alça, e que armaria uma embroscada gastromônica, uma intoxicação coletiva com queijo roquefort estragado. Aí o Diretor Comercial teve a ideia de sabotar o jatinho que vai levar o pessoal da agência até a próxima convenção de gerentes da firma, em Monte Mor. Segundo ele, seria uma boa forma de ver vocês todos mortinhos da silva de uma tacada só.
Lá pelas tantas, e na terceira rodada de Tang de uva na sala de reunião, começaram a falar da proposta que a firma recebeu de uma tal de “Tiro Certo Propaganda e Marqueting”. É bom vocês saberem que os caras já mandaram portfólio, meia dúzia de broche em formato de espingarda com o slogan “A gente acerta na mosca” e mais um ramalhete de flor pra recepcionista, a Dorinha.
Pouco tempo depois, pude ver pelo vão da porta o Dr. Célido sapateando em cima do reclame com seu Vulcabrás modelo Antônio Ermírio, juro que o homem parecia um pai de santo no auge da incorporação. É engraçado, quando ouvi pela primeira vez o nome Vulcabrás pensei que fosse uma estatal que cuidasse dos vulcão, mas aí lembrei que no Brasil não tem vulcão, pelo menos ativo. Só aposentado. E vulcão de estatal deve aposentar com salário integral, não é? Mas deixa pra lá, é só um comentário bobo de uma copeira sem estudo nem noção, e nem sei porque estou falando isso agora. O importante mesmo é que vocês precisa tomar cuidado. Quem avisa amiga é.

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VIDE BULA
setembro 20th, 2009 Posted 3:05 AM
INFORMAÇÃO AO PACIENTE
Estudos atualíssimos, patrocinados por alguns dos maiores nomes da indústria farmacêutica mundial, dão conta de que nada pode ser mais frio e impessoal que bula de remédio. De onde se conclui que sua elaboração, doravante, deve contemplar uma abordagem lúdica e interativa com o usuário, em linguagem simples, objetiva e sobretudo inteligível.
Ou seja, a ideia não é que se doure a pílula, mas a bula que a acompanha. Nossa intenção é elevar a temperatura corpórea do paciente, promovendo maior calor humano entre nosso laboratório e o consumidor.
APRESENTAÇÃO
Olá, amigo(a)!! Meu nome é Cilantilopidatreil, e de agora em diante serei seu companheiro inseparável. Estaremos juntos pelo menos 3 vezes ao dia, após as refeições. Tudo bem que você vai ter que me engolir, mas espero que isso não seja motivo para você me partir ao meio.
COMPOSIÇÃO
Letra de Helmut Pfizer. Música de Ed Roche e Sebastian Bayer. Originalmente concebida para execução em Lá Maior, acompanhada ou não pelo Regional do Capsulinha – às segunda, quartas e sextas – e pelo Renato e suas Blue Cápsulas, às terças, quintas e sábados.
INDICAÇÕES
Siga rigorosamente a seguinte orientação médica: na segunda quadra, vire à direita. Ande mais cinco quarteirões e, assim que encontrar a agência do Bradesco, pegue a sua esquerda e vá em frente, até o terceiro semáforo.
A farmácia fica bem ao lado da banca de revistas.
AÇÃO FARMACOLÓGICA
Espasmos involuntários nos músculos da face, contrações abdominais de natureza aguda, perda progressiva do fôlego, do senso crítico e do guarda-chuva no cinema, em casos mais graves.
INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS
Cilantilopidatreil não deverá ser administrado simultaneamente com moquecas em geral, pastilhas Valda e lança-perfume de fabricação caseira. A administração pela burocracia estatal também poderá trazer sérios danos ao moribundo, por provocar sonolência excessiva.
REAÇÕES ADVERSAS
Variam de discretas erupções cutâneas até o óbito, relatado em 95,7% dos casos. Por provocar diminuição da libido, o coito deve ser interrompido tão logo se inicie. Raciocínio desconexo, amnésia irreversível e descamação atípica no calcanhar direito foram efeitos detectados nos grupos de controle, durante a fase de testes do produto.
PRECAUÇÕES
Sob o efeito de Cilantilopidatreil, manetas que dirigem máquinas operatrizes precisam ser permanentemente monitorados por familiar responsável, devidamente habilitado e com CNH dentro do prazo de validade.
PACIENTES IDOSOS
Pesquisas recentes constataram episódios de disritmia na bateria da Velha Guarda da Portela.
CONDUTA NA SUPERDOSAGEM
Caso ocorra, seja ela intencional ou acidental, raramente acarreta risco de vida – apenas de morte. Quando associada a depressores do Sistema Nervoso Central, como o álcool e seus derivados, induzir o vômito ou realizar lavagem gástrica, ainda que o álcool em questão seja um Johnny Walker Blue Label.
Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças, inclusive Melhoral Infantil, e dos hipocondríacos. Conservar em local seco e fresco.

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AGUARDE NA LINHA OU LIGUE MAIS TARDE
setembro 13th, 2009 Posted 10:15 PM
Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.
O Palácio da Alvorada é patrimônio do Brasil, um país de todos. Faça uma doação e ajude a manter seus mármores e vidros em perfeito estado. Para doar R$150.000,00, ligue 0800 80088 150. Para doar R$250.000,00, ligue 0800 80088 250. Para doar R$500.000,00, ligue 0800 80088 500. Para doação de grandes valores, tecle asterisco (*) três vezes e aguarde na linha.
Se você deseja assistir em tempo real a todos os passos do Presidente, acesse www.presidente.com/webcam. Adquira o pacote completo (Combo Planalto/Alvorada/Granja do Torto), com um total de 98 câmeras transmitindo 24 horas por dia. Há opções também para o pacote meio período, com 42 câmeras transmitindo das 5 da tarde às 5 da manhã, ou o pacote fim de semana, com tudo o que acontece no cafofo presidencial no sábado e no domingo. Fale com nossas atendentes e faça sua compra pelos cartões Visa ou Mastercard.
A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.
Você sabia que só em noz moscada o Palácio da Alvorada consumiu no último mês um total de R$197.532,34, contra apenas cinco libras e noventa centavos gastos no mesmo período em Buckingham? É o Brasil mais uma vez mostrando a grandeza de seus números e sua definitiva inserção no primeiro mundo.
O Palácio da Alvorada foi o primeiro prédio construído em Brasília, possui três pavimentos e o desenho das colunas de sua fachada inspirou o brasão da cidade. O setor do palácio mais visitado pelo Presidente é a adega, e o menos freqüentado é a biblioteca. Dentre os seus mais de 70 empregados constam inclusive médicos, e estudos extra-oficiais apontam que os plantões do corpo clínico guardam estreita relação com a assiduidade do senhor Presidente às dependências da adega.
Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.
A sub-chefia do Cerimonial da Presidência comunica aos interessados que está promovendo visitas guiadas ao interior do Palácio da Alvorada. Organizados em grupos de até 300 pessoas, os turistas terão acesso a todas as dependências, incluindo a suíte presidencial de 120 m2 e o cinema, onde poderão assistir a um documentário que narra a história do Palácio e os detalhes construtivos do monumental projeto de Oscar Niemeyer. As visitas exigem retirada antecipada de senha e estão condicionadas às datas em que o senhor Presidente da República estiver em viagem oficial, ou seja, de segunda a domingo.
O espelho d’água sobre o Lago Paranoá dá a ilusão, ao visitante, de que o Palácio boia em sua a superfície. Trata-se de uma alegoria arquitetônica à população flutuante de Brasília, que abrange a quase totalidade dos habitantes da capital federal – a começar pelo mandatário supremo da nação.
A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.
Para obter o edital de concorrência para fornecimento de trufas negras de Périgord à Chef de Cuisine do Palácio, tecle 2. Para detalhes sobre a licitação de compra de jogos para playstation, tecle 3. Para informações sobre o processo seletivo de contratação de ghost writer de discursos, tecle 4.
Já ouviu falar da Alvorada Mega Store? Lá você encontra uma linha completa de presentes e souvenirs temáticos do Palácio da Alvorada. São milhares de ítens para toda a família e para você presentear seus parentes e amigos.
Na compra de três ou mais cartões postais de Brasília você concorre a uma sunga para um mergulho na piscina olímpica do Presidente.
Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.
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PARADA DA INDEPENDÊNCIA
setembro 6th, 2009 Posted 2:10 AM
A mãe para o fluxo incessante das memórias dos seus anos de internato, independente do chá de laranjeira a arrastá-la em torvelinho para o pó do giz e o álcool do mimeógrafo. A maçaneta para de levar quem se habilite ao cômodo contíguo, independente de ser ou não este outro cômodo o cenário dos enredos que fascinam. O caqui para de se abrir em seiva doce e reluzente, independente da ressequida goela dos colonos. O instinto de sobrevivência para a imobilidade aleijante, independente de todos os esforços para que nenhum esforço se faça em qualquer sentido que seja. Os segredos maçônicos param de ser segredos e vazam dos iniciados, independente do empenho dos Grão-Mestres em detê-los. Dirce de Oliveira Sales Camarinha para de arquitetar intrigas no seio doméstico, independente da quantia sumida da gaveta apontar como suspeito o arrimo da família, desafeto do cunhado que a nora da sua sogra batizou em Monte Alegre. A chuva para por inadimplência de São Pedro com a Sabesp, independente das inúmeras tentativas de negociação do débito para evitar o corte. O moço que todos juram que é irmão do Wando para de chutar nos testes de múltipla escolha, independente do seu QI recomendar o chute em 100% das ocasiões. A girafa do zoológico de Michael Jackson para de dormir de pé, independente do fato contrariar frontalmente a natureza das girafas. O Rio de Janeiro para na Rocinha de ser lindo, independente da música desde 1969 vir insistindo no contrário. O dono do celular pré-pago para de dar crédito às ofertas da operadora, independente das tarifas imperdíveis e do saldo da promoção “Recarga Premiada”. O santo para de atender os pedidos do dia, independente da urgência do devoto. O carrinho da montanha russa para no meio da descida, independente da força da gravidade funcionar regularmente. O relógio para de marcar os minutos, independente do ponteiro das horas obedecer à trajetória original de fábrica. A megasena para de acumular, independente do último sorteio não ter contemplado ninguém. A vergonha na cara para de ser nenhuma e consegue ser alguma, independente de todas as tentativas, nas três esferas do poder, para que no máximo seja mínima. O Cony para no terceiro parágrafo do texto em busca de uma palavra, independente de não levar mais que oito minutos para concluir suas crônicas. O pastor alemão da polícia militar para no decorrer do desfile e defeca na frente do palanque presidencial, independente do visível constrangimento do capitão e da câmera exclusiva da Globo.
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CONFLITO DE ENCARNAÇÕES
agosto 30th, 2009 Posted 12:30 AM
- Oi, amor.
- Ichi, atrasou um minuto e trinta hoje, heim. Cheguei a alimentar a esperança de que não viesse mais.
- Imagina, quem é morto sempre aparece.
- Dá pra falar sério ou vai continuar com a brincadeira?
- Brincadeira por brincadeira, foi você quem começou com aquela do copo. Não se deve invocar espíritos levianamente. Você perguntava, eu respondia. Foi assim uma semana inteira, toda noite, lembra? Você xavecando, querendo saber da minha vida e da minha morte, cada vez mais interessado. Não tem por que estar reclamando agora. Quem devia reclamar na verdade era eu, pois me comunicava por uma porcaria de um copo de extrato de tomate com uma crosta de sujeira no fundo e trincado na borda. Bem ao seu estilo, diga-se de passagem. Macho, desleixado, com noções precárias de higiene e ainda por cima encarnado. Arghh!
- Pois então não viesse. O que você queria, taças de cristal da Bohemia? Eu diria que o copo utilizado estava à altura da sua elevação espiritual. Aliás, eu já devia ter desconfiado do seu nível quando, ao falar sobre espíritos obsessores naquela tábua com as letras do alfabeto, você escreveu obsessão com c cedilha. O Aurélio está à disposição em algum lugar do céu, você podia tomar umas aulas particulares com ele.
- Ah, só faltava você me jogar essa na cara. Aqui no mundo dos espíritos ninguém precisa se preocupar com ortografia, bastam as boas vibrações. Coisa que você há muito tempo não vem emitindo pra mim. Já cansei de explicar pra você que somos almas gêmeas e que estamos juntos desde que o mundo é mundo. Só nos separamos temporariamente por um desencontro de encarnações…
- Olha, por mim eu deixava esse desencontro desencontrado pela eternidade afora. Quando eu for dessa pra melhor você estará encarnando de novo, e assim sucessivamente. Vai ser melhor pra nós dois. Com tanto fantasminha simpático aí em cima, logo você esquece de mim.
- Ledo engano, meu charmoso boneco de carne. Estarei sempre ao seu lado.
- Tá, e a minha privacidade, onde fica? Heim? Falar em privacidade, nem na privada tenho sossego, até no banheiro você dá o ar da graça querendo discutir a relação. Tenha dó. Quero mais é que comece logo o horário de verão, já que escurece mais tarde e eu ganho uma horinha antes de você baixar pra me encher a paciência.
- Ok, prometo ser mais discreta em minhas aparições daqui pra frente.
- Melhor ainda se limitá-las a umas duas vezes por semana, quando muito. E dê preferência aos dias de faxina, quando eu não estiver em casa.
- Bom, eu não desci aqui pra brigar com você. Mudando de assunto, como estou hoje?
- Com toda certeza, mais pálida que o costume.
- E lhe agrada? Musas geralmente são pálidas.
- Embora a palidez nesse caso seja da natureza cadavérica. E decididamente não sou chegado em necrofilia.
- Que é isso querido, não curte uma alma pelada? Imagina nós dois num caixão de casal, com rendinhas negras e colchão de água…
- Não fala assim que é pecado. Na condição de espírito você devia dar o exemplo.
- Ai, que santinho. Leio seus pensamentos o tempo todo e sei que você é um devasso. E se continuar assim, vai direto pro inferno.
- Deus me livre. Pra encontrar você lá?
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NOTÍCIAS FRESCAS DO VENERÁVEL DUÑA
agosto 16th, 2009 Posted 12:01 PM
É certo que alguém de sua envergadura moral, investido da autoridade esotérico-telúrica com que foi agraciado pelo Olimpo, jamais deveria ser visto por aí de testa franzida, espinha arriada e olhar embaçado, sem o brilho via-lácteo de outrora. Não obstante, é assim que o Duña vem se apresentando a quem o vê em seu vagar errante por entre hortas e granjas da nossa zona rural, a esmagar rabanetes e pintinhos de um dia.
Decididamente, este guardião das verdades eternas há muito não é mais o mesmo. Eu, que tenho o privilégio de privar de sua intimidade, habitué que sou dos longos serões na sua choupana, afianço-lhes que a situação assim se configura e tende a agravar-se. Tantos são os pedidos de autógrafos e fotos com criancinhas ranhetas, as prescrições de rezas-bravas, os conselhos, unguentos, bençãos, imposições de mãos sobre feridas e aleijões que já não lhe resta tempo nem de remover discretamente uma cera do ouvido, quanto mais de usufruir de reparador banho de imersão nas Thermas ou de deliciar-se com duas ou três bagas de jaca ao molho barbecue, receita de família que o mestre tanto adora preparar e deglutir.
Tenho cá para mim que seu lado humano clama um tanto pelo ócio criativo a que os comuns dos mortais têm direito. Coisas triviais como coçar uma frieira, dar umas baforadas em seu cachimbinho de jacarandá olhando o firmamento ou trocar um dedo de prosa com seu dileto amigo Silas, discípulo desgarrado e hoje carteiro em vias de se aposentar.
O Duña também é gente, é bom que não esqueçamos. De carne e osso se apresenta à pecadora humanidade, que lhe ergue bustos sem cessar, de bronze e mármore de Carrara, nas praças das grandes, pequenas e particularmente das médias cidades. Talvez a causa do desalento seja faltar ao Oráculo um superior, um outro Duña ainda mais onipotente em quem se espelhar para inspirar seu sacerdócio. Imaginem vocês o quanto deve ser solitário amparar a todos e não poder lançar-se ao colo de quem quer que seja para um providencial cafuné. Ou ter de aturar um arrastão de sacripantas, batendo à sua porta às 3 e meia da madrugada, ávidos por um palpite para o próximo sorteio da Mega Sena acumulada.
É hora de retribuir, ao fulgurante ser duñesco, uma centésima parte das bem-aventuranças e dos casos instantâneos de cura de que nos servimos a um simples toque na sua túnica, nos bons tempos em que era moço e com a longa barba ainda ruiva. Não deixemos que a esplendorosa criatura renda-se ao poço da depressão incapacitante, que nos privaria irremediavelmente dos borbotões de enunciados, teoremas e máximas que há gerações jorram de sua boca para influenciar os destinos do planeta. Sugiro que o deixemos em paz nas suas meditações fecundas, para que dessa inércia restauradora ele ressurja em seu viço de líder espiritual. E para que possa, novamente, dirimir as indagações comuns aos gurus de sua estirpe: Qual o sentido da vida? De onde viemos? Para onde vamos? Por que os jalecos dos mecânicos irlandeses apresentam mais manchas nos cotovelos que os de seus colegas hondurenhos?

VOCÊ ERA
agosto 10th, 2009 Posted 2:13 AM
Você era uma lacuna. Toneladas de vazio se ergueram nos arredores, demarcando seu lugar. Por essa fenda a alargar-se, um cão vaga até hoje em inanição a farejar seu rasto e a vasculhar arestas.
Você era uma borracha. Das verdinhas e macias, que a gente levava no estojo, quando nem me passava pela cabeça te tirar para dançar. O fato é que um belo dia, sozinha a ouvir Rubber Soul, você apagou o meu rosto no caderno de espiral. E exultou, ainda por cima, rindo-se do meu sumiço.
Você era um exaustor. Sugou o ar carregado de vagabundagem e os restos de festa que haviam. Lançou para fora do apê todas as cinzas e cacos, que devem jazer amorfos em algum bueiro da pólis. O que sobrou, se sobrou, respira com a ajuda de aparelhos.
Você era uma pílula de placebo com validade vencida. E eu a sentir seus efeitos me fiando no seu rótulo. Depois veio a rebordosa, que deixou tudo mais seco que verso de João Cabral.
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