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ALEATORIAMENTE

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agosto 2nd, 2009 Posted 9:49 PM

Ausência de criatividade pode não significar falta de aptidão para a coisa; talvez seja simplesmente desconhecimento de técnica. Às voltas diariamente com o dilema criativo, por questões profissionais, acabei caindo recentemente num site muito interessante sobre estratégias mentais.

Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “Random word”, também conhecida como “Estímulo Aleatório”. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a ideia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim paralelos e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.

Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “Brotoeja”. Caramba, brotoeja… Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas a aleatoriedade poderia ter sido um tiquinho mais camarada. Tentei de novo. Apareceu a palavra “Empada”. Pra achar alguma liga entre “Empada” e “Inspiração”, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica…

Ainda assim, fui em frente. Caí no termo “Tubo”. Relacionando “Inspiração” a “Tubo” fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à combinação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com esse argumento de tirar o fôlego. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável manancial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!

Optei pela caminhada. Coloquei bermuda e tênis e pus-me em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por remota associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros de Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de “Hollywood” por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao “Mistério de Irma Vap”, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. O tear me lembrou “tears”, das lágrimas surgiram o colírio, que me abriu os olhos e me fez parar com a brincadeira. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última ideia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.

O fato é que cheguei a 3556 caracteres, contando espaços – o que está de bom tamanho para o texto semanal. Se vai agradar ou não, é outra história. Mas valeu ter chacoalhado a macieira.
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BICICLETA ERGOMÉTRICA: GUIA PRÁTICO DE CONVIVÊNCIA PACÍFICA

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julho 25th, 2009 Posted 10:57 PM

Trapacear a si mesmo arrumando outra desculpa seria infantil: você jurou que começava na segunda, e segunda é um dia que sempre chega antes do que a gente espera. Olhe só pra ela: novinha, reluzente, a nota fiscal sobre o selim ainda coberto de plástico-bolha. Dizem que vendo TV enquanto pedala o sacrifício fica mais fácil. O problema é que, pra arrumar um lugar pra sua TurboBike Magnetic Flash, você teve que tirar a TV do quarto. E poderia ser pior: um centímetro a mais e a cama também teria que ir parar no corredor.

Uma bicicleta ergométrica é, literalmente, fria e calculista. Fria por ser metálica (no inverno é particularmente repugnante chegar perto); calculista pelo display multifunções que ostenta no guidom, se é que se pode chamar de guidom aquele troço que não vira nem pra esquerda nem pra direita. Enquanto você veste o agasalho esportivo, ela parece dizer: “Vem, amorzinho, monta com vontade. Prova que você é macho de verdade, vamos perder juntinhos aquela pizza 4 queijos que você ganhou ontem”.

Você até pensou em comprar uma bicicleta comum, dessas de 18 marchas. Observando a paisagem a coisa ficaria mais lúdica e pitoresca, com a vantagem de mostrar pra vizinhança que você cuida da forma. Mas agora é tarde, e o que resta é lidar da melhor maneira com seu novo algoz. Aí vão algumas dicas:

- Meia hora parece meio mês quando se está em cima de uma ergométrica. Melhor não ficar olhando a cada dois minutos para o indicador de tempo de exercício. Experimente a nova técnica denominada “bike meditation”: aprumando a coluna no banco, feche os olhos, respire compassadamente e imagine-se a pedalar no Caminho de Santiago. Faça da tortura algo sagrado e redentor, um instrumento de purificação da alma.

- Não tente ler jornal enquanto pedala. Além de trepidar com o movimento – o que é péssimo para a vista, em minutos seu exemplar estará empapado de suor – o que será repulsivo para quem folheá-lo depois de você.

- Evite pensar no esforço a ser feito – concentre-se nos conseqüentes resultados. Imagine-se com os pneus devidamente esvaziados, a região glútea fortalecida e os bíceps schwarzenegicamente anabolizados.

- Disfarce a aversão: seja amigável com ela. Cumprimente-a pela manhã, alise-a, pergunte como estão suas catracas. Faça dela sua aliada. Afinal de contas, ela estava muito bem lá na loja. Foi você quem inventou de trazê-la pra casa. E, como dizia o Pequeno Príncipe, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

- Com o passar dos meses, o mecanismo começa a ranger. Isso é mortalmente irritante. Para contornar o problema, assovie sua música predileta. Ou mantenha à mão um óleo lubrificante de boa qualidade, para não acordar os vizinhos de cima e de baixo do seu apartamento.

- Conforme-se com uma série de sacrifícios heroicamente praticados mundo afora, sem benefício algum para a saúde. O faquirismo, a auto-flagelação, as caminhadas sobre brasas, as filas nas repartições públicas. Você verá que, mesmo montado numa ergométrica, é feliz e não sabia.

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AUXÍLIO-JAQUETÃO E OUTRAS PROVIDÊNCIAS

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julho 19th, 2009 Posted 12:42 AM

bigode-12

Bendita a hora em que tomei a deliberação de alocar o Jervoilson, Assessor D.A.S. 6 e apaniguado há sucessivas legislaturas do Bergoncildes Canastra, para organizar minha biblioteca da fazenda. O pobre andava mesmo enfastiado da chupação de lápis na sub-comissão de transcrição para braile dos discursos parlamentares, e com esse afazer pode ocupar melhor os seus dias e amealhar de lambuja umas horinhas extras. No total são 1.587.313 exemplares do “Marimbondos d’Água” entulhados no paiol, em edições patrocinadas pela Prefeitura de Santa Luz, pelo Governo do Estado do Maralhão e pela gráfica do Senado, que honrou-me com 38 edições anuais e consecutivas para distribuição a ONGs e escolas públicas brasileiras e do Mercosul.

No mais, devo admitir que foi bastante puxada a semana que passou, com variadas emendas apresentadas e favas contadas para aprovação. A primeira delas dispõe sobre a dispensa dos senhores senadores e suplentes de suas atividades legislativas no dia de seus respectivos aniversários. Permanecendo em suas bases eleitorais, os mesmos poderão receber, no recesso de seus lares, os merecidos parabéns dos correligionários.

A segunda emenda diz respeito à inclusão do Arroz de Cuxá, iguaria da qual não consigo me privar, no cardápio do restaurante do Senado. Já agendei uma degustação no plenário ao som de Alcione, glória maralhense, acompanhada da Banda de Pífaros de Coroatá.

Já a terceira emenda só passa em primeira votação à força de conchavo e de marcação homem a homem, com os aliados da base governista caçando apoiadores na unha: a criação do “Auxílio-Jaquetão”, com verba inicial de R$ 2.600,00 inclusa no contracheque e isenta dos descontos de praxe. Modéstia à parte, considerei memorável o meu discurso, onde defendi a indumentária como sendo alternativa salutar ao calorão do cerrado, facultando o seu uso em substituição ao terno e gravata protocolares. Foi deferido ainda o encaminhamento, sem necessidade de licitação, de estudo de figurino feminino do referido jaquetão, para que as senadoras também sejam contempladas pelo benefício. O ilustre senador Filinto Mangol fez um aparte muito a propósito, sugerindo que a versão feminina contivesse estampas de florzinhas nativas das regiões de onde as legisladoras são oriundas.

Por tratar-se de assunto correlato, fiz constar nas discussões do mesmo dia outro projeto de minha autoria: a “Licença-Abotoadura”, que torna não-obrigatório o uso do adorno nas sessões plenárias, pelos mesmos motivos expostos para adoção do jaquetão, quer seja, a tórrida temperatura brasiliense. Adicionalmente, nossa Casa de Leis ganharia um fortalecimento da sua imagem perante a opinião pública, já que sem as abotoaduras se tornará mais prático o procedimento de arregaçar as mangas no batente.

Concluindo, o projeto denominado “Seguro-Jeton”, que estabelece o recebimento do adicional por assiduidade ainda que o Senador ou suplente não seja propriamente assíduo às sessões. Ninguém desconhece que a existência do Jeton é expediente criado para reforçar a remuneração básica, e o seu não recebimento seria motivo de dissabor e desconforto, tanto na Câmara quanto no Senado. A apreciação da matéria se dará em caráter de urgência urgentíssima, havendo ou não o quórum regulamentar.

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EXÍLIO DE ZOÓLOGO

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julho 12th, 2009 Posted 12:00 AM

Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.

Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.
 
Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.

Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.
 
Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

ornitorrinco

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PEDRÃO SOLTA O VERBO!

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julho 2nd, 2009 Posted 2:35 AM

sao_pedro_g12Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.

Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o reino dos céus.

Deviam aproveitar essa fogueira enorme armada aí embaixo para queimar os hereges dessa pândega sacrílega. E como há gente, com esses inocentes vestidinhos de chita, calças de grife falsamente remendadas e dente pintado de preto, que merecia uma inquisiçãozinha daquelas, ao melhor estilo medieval. Não exagero, não. Eu é que sei como é que a coisa termina, eu é que vejo o ritual nada católico atrás da tulha do rancho e cafezal adentro, sob efeito do quentão e da vitamina E do amendoim torrado. Já vi um casalzinho – o padre e a noiva da quadrilha, por sinal – que findo o arrasta-pé fez o que tinha que ser feito escorado no já citado pau-de-sebo, sendo que o sebo acabou servindo para um expediente que nem estando nos fundos dos infernos eu ousaria narrar. Pelas túnicas de Barnabé!

Vejo pais de família e gente de moral insuspeita furtando paçoca, desviando rojões para soltá-los no próximo jogo do seu time, superfaturando cachê de sanfoneiro. Em tudo quanto é quermesse vejo barracas da pesca com anzóis viciados (sei por experiência própria porque de pesca eu entendo), envelopinhos de correio elegante com cocaína dentro – tudo em nome da devoção a este que vos fala. Fora as calúnias envolvendo minha pessoa que entoam abertamente por toda parte, dizendo que eu fugi com a noiva na hora de ir pro altar. Brincadeira inconsequente com o sacramento do matrimônio! E ainda falam que a dita cuja era filha do João, com quem o Antonio ia se casar. Aí já é demais, me poupem. São Pedro cobiçando a mulher do próximo, sendo que o próximo é outro santo!!!

Pergunto: que tem tudo isso a ver com este velho Pedro que andou com o Mestre sobre as águas, que infortunadamente o negou por três vezes, que tem as chaves do céu? Milho verde, pipoca, canjica, lá na Galileia nunca teve nada disso. E o delírio prossegue com mais uns outros termos sem pé nem cabeça, que um sujeito fica entoando no microfone enquanto os caipiras de fachada saracoteiam aos pares: caminho da roça, balancê, a ponte quebrou, olha a cobra…

Vou é fechar o tempo e mandar uma chuva pra acabar com tudo.

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CIENTISTA DE ABADÁ

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junho 20th, 2009 Posted 11:10 PM

Digerido o mingau de maizena das dezoito e trinta, reparti o cabelo ao meio, calcei minhas botinas e rumei em desabalada carreira à grande festa de Momo.

Em meio à balbúrdia generalizada, ouvi algumas pessoas ao meu lado proferirem reiteradamente o termo “cheirar lança”. De imediato meu sistema cognitivo associou a expressão a um aborígene aspirando sofregamente seu instrumento de caça, e tal quadro afigurou-se-me exageradamente surreal. Não dei maior importância, ainda que considerasse estranho aqueles rapazes rindo sem motivo aparente, e prossegui embalado nos folguedos, circundado por um manancial de regiões glúteas bem proporcionadas.

Foi quando percebi assomar em minha direção, a uma velocidade média que pelos meus cálculos girava em torno de 4,6 metros por segundo, uma engenhoca denominada Trio Elétrico. Tentei vislumbrar onde exatamente se achavam instalados a trava, o vidro e o alarme, mas não avistei senão um amontoado de tocadores de tambor sem camisa e uma cantora com as pernas de fora posicionados acima do veículo, que se assemelhava a um palco ambulante e arrebanhava multidão crescente conforme ia transitando. Por Galileu, qual seria o sentido daquele rito profano?

Cismava nessas conjecturas quando um alto-falante próximo anunciou que dentro de meia hora teria início o desfile das escolas. Ora, pensei, o 7 de Setembro já se fora há mais de 5 meses; além do que não via naquele cenário de perversão e sodomia o ambiente propício a uma parada cívica, com alunos de escolas estaduais e municipais saudando o dia da Pátria.

Importante frisar que, ainda que empreendesse todos os esforços para permanecer imóvel e em atitude meramente contemplativa, aquela procissão de excomungados me empurrava a contragosto. Era por assim dizer arrastado, em efeito análogo ao refluxo do mar quando estamos com as marolas batendo na altura das canelas, em Praia Grande ou São Vicente.

Artefatos circulares de papel colorido e rala espessura, denominados confetes, eram arremessados sem mãos a medir na direção dos meus olhos, como se os foliões quisessem deliberadamente levar-me à cegueira a todo custo. É bem verdade que nem todos os acima designados confetes atingiam o sistema ocular – 16% se alojavam entre a mucosa da boca e a laringe e outros 7,8% pousavam inertes sobre o copo de leite batido que empunhava ao som do “Alalaô”. Considere-se nesta estatística uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, estabelecendo como desprezível a resistência do ar entre a posição de arremesso e o alvo.

Questões outras também eram por mim analisadas, como a fadiga e a dilatação de corpos e materiais, o poder de abrasão das fantasias de califa quando roçadas com as de odalisca e a ação mensurável das forças centrífuga e centrípeta nos chamados cordões carnavalescos. Por volta das três e meia da madrugada, uma mulher de aparência polaca e olheiras fundas – provavelmente causadas por falta de sono reparador – agarrou-me à força e beijou-me demoradamente, passando em seguida às minhas mãos um lenço umedecido e um cilindro de vidro translúcido com líquido não identificado em seu interior, trazendo um rótulo onde se lia “Universitário”.

Sem entender bem o porquê do presente, pressionei a válvula, muito semelhante à de um extintor de incêndio. Imediatamente rondaram-me dezoito elementos vindos não sei de onde, todos com lenços nas mãos e olhando ávidos para meu pequeno tubo transparente. Estupefato, perguntei ao grupo em que poderia ser útil. Uma fração de segundo depois, um dos indivíduos me socava a cara enquanto outro me furtava o cobiçado “Universitário”, como se o apetrecho fosse a chave do paraíso. Acordei na delegacia, onde me encontro agora em companhia de nativos, cujas peculiaridades comportamentais merecem um detalhado estudo antropológico.

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A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI

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junho 12th, 2009 Posted 6:17 PM

 

Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha, Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda juram ouvir a algazarra no salão de jogos.

Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante, ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas de São João, na procissão do Divino.

Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço, rogando forças não para manter a fortuna que tinha, mas para continuar dando amparo à vila de colonos que dependia dela.

Os que hoje passam com pressa e indiferença em frente ao prédio de blindex da Praça Armando Sales desconhecem o que se chorou e se riu enquanto ali era um lar, com panelas no fogo e compotas na despensa, lar que continuava lar de afeto e de aconchego a despeito da rica mobília, das desavenças políticas, das pequenas intrigas que cercam quem quer que habite uma mansão de vinte e oito cômodos.

Quem vê a agência bancária moderna, a dominar o quarteirão com todo o aparato de segurança, provavelmente não testemunhou o ranger do portão da frente, em madeira vermelha, que se abria com generosidade idêntica para um mendigo ou para o Juscelino Kubitschek. Nem lembra do Dr. Oscar a clinicar de graça ou recebendo porcos e galinhas em paga de partos, na época em que seu consultório ocupava um dos quartos do casarão.

No banco 24 horas, frio como moeda, já não se tem mais notícia da dama lusa em trajes negros, Dona Lucina para uns e Mandinha para outros, que há muito já estava na igreja enquanto a cidade dormia. A portuguesa que veio dos Açores no século dezenove, jeito austero e sotaque carregado mesmo após décadas de Brasil, só deixava a sua casa pela casa de oração. E embora lá de cima a entristeça ver a estranha metamorfose do cenário da sua vida, às vezes deve abandonar o cantinho de céu a que teve direito para vagar por seus domínios demolidos, zanzando entre um caixa e outro como se estivesse buscando empréstimo para a colheita de café. Talvez ao ler este texto ralhasse por alguma razão comigo, bisneto a quem nem conheceu. Mas ficar brava definitivamente não era do seu feitio. Por maior que fosse a farra das crianças no salão de jogos.

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MANÉ, SAUDOSO MANÉ

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junho 7th, 2009 Posted 1:45 PM

Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

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