Archive for the ‘Crônicas’ Category
EXÍLIO DE ZOÓLOGO
julho 12th, 2009 Posted 12:00 AM
Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.
Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.
Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.
Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.
Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

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ATRÁS DA BOLINHA AMARELA
julho 6th, 2009 Posted 10:17 PM
A bola amarela de borracha rolou pelo barranco primeiro. Em seguida, o pequeno salsichinha. E ele veio com tanta vontade, com tanta, que rolou umas duas ou três vezes até alcançar seu brinquedo preferido lá embaixo. Abocanhou com vontade, chacoalhou rabo, bola e ele inteiro, e escalou o morro de volta bem rapidinho para rolar e chacoalhar tudo de novo depois. Ô alegria!
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PEDRÃO SOLTA O VERBO!
julho 2nd, 2009 Posted 2:35 AM
Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.
Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o reino dos céus.
Deviam aproveitar essa fogueira enorme armada aí embaixo para queimar os hereges dessa pândega sacrílega. E como há gente, com esses inocentes vestidinhos de chita, calças de grife falsamente remendadas e dente pintado de preto, que merecia uma inquisiçãozinha daquelas, ao melhor estilo medieval. Não exagero, não. Eu é que sei como é que a coisa termina, eu é que vejo o ritual nada católico atrás da tulha do rancho e cafezal adentro, sob efeito do quentão e da vitamina E do amendoim torrado. Já vi um casalzinho – o padre e a noiva da quadrilha, por sinal – que findo o arrasta-pé fez o que tinha que ser feito escorado no já citado pau-de-sebo, sendo que o sebo acabou servindo para um expediente que nem estando nos fundos dos infernos eu ousaria narrar. Pelas túnicas de Barnabé!
Vejo pais de família e gente de moral insuspeita furtando paçoca, desviando rojões para soltá-los no próximo jogo do seu time, superfaturando cachê de sanfoneiro. Em tudo quanto é quermesse vejo barracas da pesca com anzóis viciados (sei por experiência própria porque de pesca eu entendo), envelopinhos de correio elegante com cocaína dentro – tudo em nome da devoção a este que vos fala. Fora as calúnias envolvendo minha pessoa que entoam abertamente por toda parte, dizendo que eu fugi com a noiva na hora de ir pro altar. Brincadeira inconsequente com o sacramento do matrimônio! E ainda falam que a dita cuja era filha do João, com quem o Antonio ia se casar. Aí já é demais, me poupem. São Pedro cobiçando a mulher do próximo, sendo que o próximo é outro santo!!!
Pergunto: que tem tudo isso a ver com este velho Pedro que andou com o Mestre sobre as águas, que infortunadamente o negou por três vezes, que tem as chaves do céu? Milho verde, pipoca, canjica, lá na Galileia nunca teve nada disso. E o delírio prossegue com mais uns outros termos sem pé nem cabeça, que um sujeito fica entoando no microfone enquanto os caipiras de fachada saracoteiam aos pares: caminho da roça, balancê, a ponte quebrou, olha a cobra…
Vou é fechar o tempo e mandar uma chuva pra acabar com tudo.
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CIENTISTA DE ABADÁ
junho 20th, 2009 Posted 11:10 PM
Digerido o mingau de maizena das dezoito e trinta, reparti o cabelo ao meio, calcei minhas botinas e rumei em desabalada carreira à grande festa de Momo.
Em meio à balbúrdia generalizada, ouvi algumas pessoas ao meu lado proferirem reiteradamente o termo “cheirar lança”. De imediato meu sistema cognitivo associou a expressão a um aborígene aspirando sofregamente seu instrumento de caça, e tal quadro afigurou-se-me exageradamente surreal. Não dei maior importância, ainda que considerasse estranho aqueles rapazes rindo sem motivo aparente, e prossegui embalado nos folguedos, circundado por um manancial de regiões glúteas bem proporcionadas.
Foi quando percebi assomar em minha direção, a uma velocidade média que pelos meus cálculos girava em torno de 4,6 metros por segundo, uma engenhoca denominada Trio Elétrico. Tentei vislumbrar onde exatamente se achavam instalados a trava, o vidro e o alarme, mas não avistei senão um amontoado de tocadores de tambor sem camisa e uma cantora com as pernas de fora posicionados acima do veículo, que se assemelhava a um palco ambulante e arrebanhava multidão crescente conforme ia transitando. Por Galileu, qual seria o sentido daquele rito profano?
Cismava nessas conjecturas quando um alto-falante próximo anunciou que dentro de meia hora teria início o desfile das escolas. Ora, pensei, o 7 de Setembro já se fora há mais de 5 meses; além do que não via naquele cenário de perversão e sodomia o ambiente propício a uma parada cívica, com alunos de escolas estaduais e municipais saudando o dia da Pátria.
Importante frisar que, ainda que empreendesse todos os esforços para permanecer imóvel e em atitude meramente contemplativa, aquela procissão de excomungados me empurrava a contragosto. Era por assim dizer arrastado, em efeito análogo ao refluxo do mar quando estamos com as marolas batendo na altura das canelas, em Praia Grande ou São Vicente.
Artefatos circulares de papel colorido e rala espessura, denominados confetes, eram arremessados sem mãos a medir na direção dos meus olhos, como se os foliões quisessem deliberadamente levar-me à cegueira a todo custo. É bem verdade que nem todos os acima designados confetes atingiam o sistema ocular – 16% se alojavam entre a mucosa da boca e a laringe e outros 7,8% pousavam inertes sobre o copo de leite batido que empunhava ao som do “Alalaô”. Considere-se nesta estatística uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, estabelecendo como desprezível a resistência do ar entre a posição de arremesso e o alvo.
Questões outras também eram por mim analisadas, como a fadiga e a dilatação de corpos e materiais, o poder de abrasão das fantasias de califa quando roçadas com as de odalisca e a ação mensurável das forças centrífuga e centrípeta nos chamados cordões carnavalescos. Por volta das três e meia da madrugada, uma mulher de aparência polaca e olheiras fundas – provavelmente causadas por falta de sono reparador – agarrou-me à força e beijou-me demoradamente, passando em seguida às minhas mãos um lenço umedecido e um cilindro de vidro translúcido com líquido não identificado em seu interior, trazendo um rótulo onde se lia “Universitário”.
Sem entender bem o porquê do presente, pressionei a válvula, muito semelhante à de um extintor de incêndio. Imediatamente rondaram-me dezoito elementos vindos não sei de onde, todos com lenços nas mãos e olhando ávidos para meu pequeno tubo transparente. Estupefato, perguntei ao grupo em que poderia ser útil. Uma fração de segundo depois, um dos indivíduos me socava a cara enquanto outro me furtava o cobiçado “Universitário”, como se o apetrecho fosse a chave do paraíso. Acordei na delegacia, onde me encontro agora em companhia de nativos, cujas peculiaridades comportamentais merecem um detalhado estudo antropológico.
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QUANDO EU CRESCER
junho 18th, 2009 Posted 5:06 PM

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A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI
junho 12th, 2009 Posted 6:17 PM

Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha, Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda juram ouvir a algazarra no salão de jogos.
Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante, ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas de São João, na procissão do Divino.
Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço, rogando forças não para manter a fortuna que tinha, mas para continuar dando amparo à vila de colonos que dependia dela.
Os que hoje passam com pressa e indiferença em frente ao prédio de blindex da Praça Armando Sales desconhecem o que se chorou e se riu enquanto ali era um lar, com panelas no fogo e compotas na despensa, lar que continuava lar de afeto e de aconchego a despeito da rica mobília, das desavenças políticas, das pequenas intrigas que cercam quem quer que habite uma mansão de vinte e oito cômodos.
Quem vê a agência bancária moderna, a dominar o quarteirão com todo o aparato de segurança, provavelmente não testemunhou o ranger do portão da frente, em madeira vermelha, que se abria com generosidade idêntica para um mendigo ou para o Juscelino Kubitschek. Nem lembra do Dr. Oscar a clinicar de graça ou recebendo porcos e galinhas em paga de partos, na época em que seu consultório ocupava um dos quartos do casarão.
No banco 24 horas, frio como moeda, já não se tem mais notícia da dama lusa em trajes negros, Dona Lucina para uns e Mandinha para outros, que há muito já estava na igreja enquanto a cidade dormia. A portuguesa que veio dos Açores no século dezenove, jeito austero e sotaque carregado mesmo após décadas de Brasil, só deixava a sua casa pela casa de oração. E embora lá de cima a entristeça ver a estranha metamorfose do cenário da sua vida, às vezes deve abandonar o cantinho de céu a que teve direito para vagar por seus domínios demolidos, zanzando entre um caixa e outro como se estivesse buscando empréstimo para a colheita de café. Talvez ao ler este texto ralhasse por alguma razão comigo, bisneto a quem nem conheceu. Mas ficar brava definitivamente não era do seu feitio. Por maior que fosse a farra das crianças no salão de jogos.
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FAÇA UM PASSAGEIRO FELIZ!
junho 11th, 2009 Posted 12:27 AM
Da moto eu vi os cães no banco de trás do furgão. Dois. E não eram de raça não, o que também não fazia diferença alguma. Eles estavam bonitos, brilhosos, e felizes toda vida. Eu vi. Enquanto olhavam curiosos pelo vidro, sacolejando para lá e para cá, seus rabos de sorriso não paravam de balançar. Pensei na quantidade de bancos de trás vazios que circulam em São Paulo. Eles poderiam amenizar a tristeza de muito cãozinho sem lar.
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MANÉ, SAUDOSO MANÉ
junho 7th, 2009 Posted 1:45 PM
Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.
Dizia o Mané:
“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.
Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.
Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.
Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:
“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”
Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.
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DROPS PATERNOS
maio 28th, 2009 Posted 12:04 PM
Me corrija se estiver errado, mas tenho sentido você um tanto desiludido, mais cabisbaixo e indolente que o costume. Filho, não se deixe abater, você não tem motivos justificáveis para entregar a rapadura. Lembre-se daquele antiquíssimo ditado hindu, que o passar do tempo só reforça sua sabedoria e validade: “O espelho da vida é a sombra do infinito”. Nos momentos de desânimo e depressão, devemos nos agarrar ao bálsamo reconfortante destas palavras, que o seu padrinho, o palhaço Estrepolia, repete religiosamente antes de subir ao palco. Sabe, me sinto muito mais à vontade em falar assim com você, por bilhetes. Como alguém que não se furta em dar o ar da graça, mas tem horror de parecer inconveniente ou arriscar um cafuné em hora imprópria. Você compreende, é meu estilo. Seu avô, o príncipe dos malabares, também era assim.
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Ainda tem um pouco de mingau de maizena na geladeira, dá uma esquentada no microondas quando chegar. Domadores de leões como você não costumam prescindir desta iguaria, tão rica em complexo B. Meu garoto, não tente achar tanto sentido nas coisas que te disse ontem, quando conversamos a sós no picadeiro. É só a minha visão pessoal, que pode ou não ser considerada, dependendo do conceito que você tenha de mim enquanto pai. Ser pai é fácil, basta um momento de inconsequência ou de esquecimento na hora do bem-bom. Quero que a minha autoridade sobre você seja aceita pelo que digo e faço, não pelo que represento na hierarquia familiar. O fato de ser mais velho não significa que seja mais sábio que você ou que tenha me tornado menos louco com o passar do tempo. É mais do que notória a minha fama de zureta, e é impossível que tanta gente esteja errada ao meu respeito. Portanto, siga meus conselhos, mas com uma certa reserva.
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Esfrie a cabeça, literalmente: caia n’água, pegue uma piscina. Já tive lampejos mirabolantes entre uma braçada e outra, vale tentar. Estar desorientado em questões vocacionais é normal em sua idade, comigo não foi diferente. Antes de optar de vez pelo trapézio, fui corretor de ações da malfadada Fazendas Reunidas Boi Gordo, me embrenhei alucinadamente na venda de jazigos para cães e até uma fabriqueta de troféus e medalhas já passou por minhas mãos. Em todas estas investidas admito ter quebrado a cara – o que, contrariando todas as óbvias expectativas, jamais aconteceu comigo sob a lona de um circo. É, meu filho, a vida tem dessas coisas. O que parece seguro esconde grandes ciladas, e vice-versa.
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Pelo menos nos quinze ou vinte primeiros encontros, uma mulher só se sentirá segura em seus braços se seus braços não forem além do que ela julgue razoável. Entende o que quero dizer? Seja tolerante, extravase os hormônios solitariamente por enquanto. Uma garota que aceita carícias naquelas partes logo de cara não serve para ser mãe dos meus netos. Ainda mais em se tratando da filha da engolidora de fogo, aquelazinha de índole duvidosa. Vou lhe fazer uma confissão: só desembrulhei completamente a senhora sua mãe na noite de núpcias, e ainda assim depois de certificar-me que seus instrumentos de trabalho não estavam ao alcance da mão. Você sabe, ela era atiradora de facas no Stankowich, onde trabalhávamos na época. Bem, chega por hoje. Nos vemos amanhã, após o espetáculo.
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AMIGO!
maio 25th, 2009 Posted 5:26 PM
Meu amigo cãozinho! Que eu conheci agora e já precisei me despedir. Foi rápido. Da saída da moto à entrada para o shopping, 5 minutinhos de caminhada, nem isso. 500 metros com a sua companhia, do meu lado, como se fôssemos velhos conhecidos. Tudo por causa de um carinho que eu te fiz. E que você me fez. O amor vem de graça. Está no olhar, no gesto, na intenção da gente. Tanto que em um instante você tinha medo, e no outro já não tinha mais. Deu uma alegria meio triste por isso, por saber que o amigo bonzinho está pelas ruas. Sozinho. Dá um nó na garganta de escrever isso agora. Mas o que posso fazer? Só pedir aos céus para que você tenha sempre muita proteção, daqui e de ‘lá’, e que jamais te falte nada.
(Ocorrido hoje, de manhã cedinho, no Shopping Tamboré, em Barueri-SP, na minha ida para a academia)
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