Archive for the ‘Crônicas’ Category
FAÇA UM PASSAGEIRO FELIZ!
junho 11th, 2009 Posted 12:27 AM
Da moto eu vi os cães no banco de trás do furgão. Dois. E não eram de raça não, o que também não fazia diferença alguma. Eles estavam bonitos, brilhosos, e felizes toda vida. Eu vi. Enquanto olhavam curiosos pelo vidro, sacolejando para lá e para cá, seus rabos de sorriso não paravam de balançar. Pensei na quantidade de bancos de trás vazios que circulam em São Paulo. Eles poderiam amenizar a tristeza de muito cãozinho sem lar.
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MANÉ, SAUDOSO MANÉ
junho 7th, 2009 Posted 1:45 PM
Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.
Dizia o Mané:
“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.
Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.
Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.
Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:
“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”
Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.
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DROPS PATERNOS
maio 28th, 2009 Posted 12:04 PM
Me corrija se estiver errado, mas tenho sentido você um tanto desiludido, mais cabisbaixo e indolente que o costume. Filho, não se deixe abater, você não tem motivos justificáveis para entregar a rapadura. Lembre-se daquele antiquíssimo ditado hindu, que o passar do tempo só reforça sua sabedoria e validade: “O espelho da vida é a sombra do infinito”. Nos momentos de desânimo e depressão, devemos nos agarrar ao bálsamo reconfortante destas palavras, que o seu padrinho, o palhaço Estrepolia, repete religiosamente antes de subir ao palco. Sabe, me sinto muito mais à vontade em falar assim com você, por bilhetes. Como alguém que não se furta em dar o ar da graça, mas tem horror de parecer inconveniente ou arriscar um cafuné em hora imprópria. Você compreende, é meu estilo. Seu avô, o príncipe dos malabares, também era assim.
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Ainda tem um pouco de mingau de maizena na geladeira, dá uma esquentada no microondas quando chegar. Domadores de leões como você não costumam prescindir desta iguaria, tão rica em complexo B. Meu garoto, não tente achar tanto sentido nas coisas que te disse ontem, quando conversamos a sós no picadeiro. É só a minha visão pessoal, que pode ou não ser considerada, dependendo do conceito que você tenha de mim enquanto pai. Ser pai é fácil, basta um momento de inconsequência ou de esquecimento na hora do bem-bom. Quero que a minha autoridade sobre você seja aceita pelo que digo e faço, não pelo que represento na hierarquia familiar. O fato de ser mais velho não significa que seja mais sábio que você ou que tenha me tornado menos louco com o passar do tempo. É mais do que notória a minha fama de zureta, e é impossível que tanta gente esteja errada ao meu respeito. Portanto, siga meus conselhos, mas com uma certa reserva.
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Esfrie a cabeça, literalmente: caia n’água, pegue uma piscina. Já tive lampejos mirabolantes entre uma braçada e outra, vale tentar. Estar desorientado em questões vocacionais é normal em sua idade, comigo não foi diferente. Antes de optar de vez pelo trapézio, fui corretor de ações da malfadada Fazendas Reunidas Boi Gordo, me embrenhei alucinadamente na venda de jazigos para cães e até uma fabriqueta de troféus e medalhas já passou por minhas mãos. Em todas estas investidas admito ter quebrado a cara – o que, contrariando todas as óbvias expectativas, jamais aconteceu comigo sob a lona de um circo. É, meu filho, a vida tem dessas coisas. O que parece seguro esconde grandes ciladas, e vice-versa.
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Pelo menos nos quinze ou vinte primeiros encontros, uma mulher só se sentirá segura em seus braços se seus braços não forem além do que ela julgue razoável. Entende o que quero dizer? Seja tolerante, extravase os hormônios solitariamente por enquanto. Uma garota que aceita carícias naquelas partes logo de cara não serve para ser mãe dos meus netos. Ainda mais em se tratando da filha da engolidora de fogo, aquelazinha de índole duvidosa. Vou lhe fazer uma confissão: só desembrulhei completamente a senhora sua mãe na noite de núpcias, e ainda assim depois de certificar-me que seus instrumentos de trabalho não estavam ao alcance da mão. Você sabe, ela era atiradora de facas no Stankowich, onde trabalhávamos na época. Bem, chega por hoje. Nos vemos amanhã, após o espetáculo.
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AMIGO!
maio 25th, 2009 Posted 5:26 PM
Meu amigo cãozinho! Que eu conheci agora e já precisei me despedir. Foi rápido. Da saída da moto à entrada para o shopping, 5 minutinhos de caminhada, nem isso. 500 metros com a sua companhia, do meu lado, como se fôssemos velhos conhecidos. Tudo por causa de um carinho que eu te fiz. E que você me fez. O amor vem de graça. Está no olhar, no gesto, na intenção da gente. Tanto que em um instante você tinha medo, e no outro já não tinha mais. Deu uma alegria meio triste por isso, por saber que o amigo bonzinho está pelas ruas. Sozinho. Dá um nó na garganta de escrever isso agora. Mas o que posso fazer? Só pedir aos céus para que você tenha sempre muita proteção, daqui e de ‘lá’, e que jamais te falte nada.
(Ocorrido hoje, de manhã cedinho, no Shopping Tamboré, em Barueri-SP, na minha ida para a academia)
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SONHO BOM
maio 21st, 2009 Posted 4:27 PM
Os golfinhos estavam no meu sonho, e brincando comigo, e sorrindo também. Eram dois, e eles riam com os olhos. E saiam quase inteiros da água pra me abraçar. E eu fiquei tão feliz como se aquilo fosse de verdade. É uma vontade que eu tenho, de pequeno. Brincar com os golfinhos. Como pra maioria das crianças é ir à Disney ver o Mickey, sabe. Eu, particularmente, sempre preferi os animais de verdade. Ainda que em sonho. Hoje eu sonhei. E acordei feliz. E vou passar o dia inteiro com os amigos brincalhões no pensamento.
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“FELIZES PARA SEMPRE” UMA OVA!!!
maio 17th, 2009 Posted 12:52 PM

O sujeito dá vida à gente, cria aquela história maravilhosa, diz que todos viveram felizes para sempre, põe um ponto final e se arranca. Nunca mais volta para ver o que aconteceu depois às suas indefesas criaturas, no mundo do faz-de-conta. Ora, quem põe filho no mundo tem responsabilidades a honrar. Como é que pode um autor se comprometer com a posteridade e colocar sua credibilidade em jogo, fadando seus personagens a um destino cor-de-rosa sem dar a eles meios para isso? Felizes para sempre, essa é boa…
Vejamos o drama do Prático, o porquinho precavido que construiu a casa de tijolos. Como o conto de fadas tinha que terminar logo, o suíno se viu forçado a correr com a obra e uma semana depois a casinha tinha infiltração, três grandes rachaduras que iam do chão ao teto e um fiscal da prefeitura todo dia batendo na porta, atormentando o proprietário por causa do Habite-se. Tão logo tomou conhecimento do infortúnio, o lobo voltou à casa e nem precisou soprar para que viesse abaixo. Em dois minutos já estava com os três leitões debaixo do braço. Pôs Cícero para engordar no chiqueiro, Heitor foi alocado nos afazeres domésticos da casa avarandada do malvado e Prático foi obrigado a travestir-se de veado e ganhar a vida com ofícios pouco familiares, entregando ao lobo todo o michê do dia. O curioso é que perante a opinião publica o lobo ainda posa de benfeitor, por ter tirado os porquinhos da indigência e dado a eles um abrigo digno. Dizem inclusive que fundou uma ONG, chamada “Lobo Bom”, que se dedica a difundir pelos reinos mais distantes os ideais da filantropia e da solidariedade.
Mas é preciso admitir que sorte pior teve a Cinderela. Antes que a tinta do original da história secasse sobre o pergaminho, começou o calvário da heroína. Horas após o suntuoso casório, quando o príncipe foi dar um cata na moça pra fazer neném, o salto do sapatinho de cristal esquerdo espatifou-se a caminho da cama, depois de patinar num resto de brigadeiro jogado ao chão por um convidado mais porco que Heitor, Prático e Cícero juntos. Além do cristal do sapato, quebrou-se também o fêmur da delicada Cinderela.
A forçada quarentena da moça, devido à cirurgia para colocação de 16 pinos na perna, obrigou o fogoso príncipe a aplacar os hormônios junto a um sem número de donzelas do reino. Sem sex-appeal aos olhos do marido, Cinderela passou a ajudar as faxineiras reais na varrição e no enceramento do salão de baile. Hoje faz doces para fora, com a abóbora que sobrou da carruagem. Tenta com seu advogado tornar sem efeito a autuação da vigilância sanitária, que após análise bacteriológica julgou a referida abóbora imprópria para consumo. Enquanto aguarda decisão judicial, diversifica sua produção com outras qualidades de doces. Só não aceita encomendas para brigadeiros, por motivos óbvios.
Estes são apenas dois exemplos, dentre muitos que poderia citar, da orfandade a que nós, personagens, estamos submetidos. Abrace, leitor amigo, a nossa causa. Não caia no conto de fadas!
Assinado,
O Patinho Feio, que voltou a ser feio após 14 gloriosos dias com jeitão de cisne.
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Tags: conto de fadas, Crônicas
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Encountry o Sucesso
maio 12th, 2009 Posted 3:18 AM
Valdivino & Laudislano são um estouro nas paradas. Um sucesso talvez maior que mil estouros de boiada, coisa que nenhum dos dois viu de perto na vida, embora se proclamem cantores sertanejos como Januário & Vespertino, com seus cinturões dourados comprados numa excursão ao Mississippi. Dupla que por sua vez, a exemplo de Furacão & Hurricane, está com a agenda de shows lotada até julho de 2010 em feiras agropecuárias onde não há agricultura e muito menos pecuária. Talentos que não ficam nada a dever a Christóvão & Christino, que quase largaram a estrada com ameaça de gangrena nas pernas, fato idêntico ocorrido a Juanito & Ranulfo, por causa da compressão das calças excessivamente agarradas.
Essa maciça e inconteste consagração popular faz lembrar os trinados rouxinolescos de Joracy & Jurabel, guardiões da nossa legítima música de raiz, ainda que a única raiz que conheçam seja a raiz forte servida no restaurante japonês caríssimo que frequentam nos Jardins. Os mesmos Jardins que abrigam os empresários artísticos de Tiago & Risério, Suzano & Bebeto e Wilson José & José Wilson, reis absolutos do cancioneiro arranca-toco, sem que jamais suas caminhonetes 4×4 cabine sêxtupla tenham passado perto de um caminhão de bóias-frias. Frutos consagrados da roça como Alexandrino & Dito da Tulha, com suas taperas e ranchinhos fincados em Alphaville, suas aparições compradas nos programas de auditório e suas cotas de 48 páginas/ano de fotos no Castelo de Caras.
Nenhum outro duo, todavia, tem levado tão a sério o trabalho de preservação das tradições caipiras quanto Caio Morotti & Feliciano, cujas reboladinhas country e solinhos de banjo resgatam às novas gerações o folclore de Kentucky e Massachusetts. Ídolos que sofreram forte influência dos inimitáveis Osmar & Arsênio, dupla com apresentações-surpresa e merchandising garantidos até a edição 15 do Big Brother Brasil, aquele reality show roteirizado pela equipe de redatores da Rede Globo.
O fato é que o Olimpo da autêntica moda de viola é pródigo de estrelas. Só mesmo alguém com estrume na cabeça poderia deixar de reconhecer a contribuição decisiva de Bruna & Torrone, Aladin & Lâmpada Maravilhosa e Andrezinho & Rodrigão para o sucesso dos leilões de gado empreendidos por esse Brasil sem porteira. O caviar russo e as doses cavalares de Blue Label ali servidos de nada adiantariam sem os megashows dessa turminha rural – que verdadeiramente embala e alavanca os lances mínimos de 500 mil reais por uma colher de sopa de sêmen de zebu premiado.
Meu amigo, eu diria que esse é o lado maravilhoso da chamada globalização: o Texas fica em Pindamonhangaba e vice-versa. Dá orgulho ver os nossos jecas e matutos tornando-se tão idênticos a um farmer anglo-saxônico, ainda que só na roupitcha. Cabe a nós valorizar e levar adiante essa bandeira multicultural. Às vezes ouço falar, meio por alto, de outros nomes menos conhecidos: Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, Cascatinha & Nhana, Pena Branca & Xavantinho. Confesso minha ignorância. Seriam novas duplinhas country? Se tiverem mesmo talento, logo logo estarão na TV. É esperar para ver.

MINHA RELIGIÃO É A NATUREZA
maio 8th, 2009 Posted 3:12 PM


